18.2.06

Pedras que rolam não criam limo

Então Miriã, a profetiza, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças.

Êxodo 15:20


Decidi quebrar o silêncio desse blog aproveitando os acontecimentos culturais que teremos em breve no Brasil, pois achei bem propício. A frase que coloquei como título é antiga, mas vem bem a calhar com a semana. Algumas bandas de rock internacionais estão vindo fazer show no Brasil. O U2, irlandês, fará show em São Paulo, nos dias 20 e 21 de fevereiro (próximas segunda e terça-feiras). Os Rolling Stones, antigo grupo inglês, faz um grande show na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, hoje, 18 de fevereiro.

Dizem que o diabo é o pai do rock, segundo alguns cristãos estúpidos extremistas. Eu, particularmente acho então que Deus é o avô, mas por tal afirmação alguns irmãos adorariam me assar no fogo da Geena... Já ouvi desde narrativas desesperadas sobre o "demônio acústico", até pregações inflamadas a respeito. Assisti palestras de gente "entendida" virando disco ao contrário para ouvir as mensagens subliminares que lá se escondiam, e recebi recortes de jornal provando que o rock tem "origem" nos cultos dos druidas, feiticeiros celtas do século IX e X. Ao mesmo tempo, discursos dizendo que "a música cristã é a boa".

Primeiro, acho que não deveria existir esse rótulo de "música cristã", ou "música gospel". Música é música, e pode ser usada em diversos propósitos, inclusive o louvor ao Senhor, ou adoração ao diabo. Mas nem toda música está num desses dois pólos. Aliás, é a minoria que está localizada nesses dois pontos. Mas a grande maioria não foi criada com o propósito de idolatrar outro que não Deus. Infelizmente muitos acham isso. Ou seja, trocando em miúdos: Só porque se converteu a Cristo, não quer dizer que tudo que não é explicitamente cristão é do diabo. Pobres coitados, que não conhecem o U2, por exemplo, e não sabem a caminhada espiritual da banda...

O rock tem origem simultânea, e raízes no gospel das igrejas negras estadunidenses, e no folk britânico. Influências dos celtas? Não sei, só acho que a distância é grande demais para isso. E mesmo que fosse, o que tem a ver o estilo musical com as práticas abomináveis de alguns druidas (que sacrificavam infantes a deuses desconhecidos e que não respondiam às preces)? Mas, ser cristão e gostar de rock, em alguns casos é complicado. Falo por experiência própria, já fui discriminado e severamente criticado, por declinar que eu gosto de rock. A pessoa que me criticou saiu furiosa do salão de culto, logo depois da minha afirmação "hedionda", providenciou o tal recorte de jornal que citei acima, e jogou na minha mão, dizendo que estava "prestando-me um conselho". E também fui defendido por uma pessoa, mais velha e bem mais respeitável do que eu (dentro da comunidade em que congrego), dizendo que o gosto musical dele não interfere na sua fé cristã. Posteriormente, soube que esse senhor é até hoje um discreto fã de Elvis Presley, Elton John (e os críticos diriam: Nossa, ele é gay! E daí?), alguns "roqueiros" dos anos 60 que fizeram a cabeça dele. Bem, ainda por causa desse irmão problemático (que nem mais congrega na minha igreja), estou sem poder usar da palavra (coisa que fazia com habitual frequência, muito prazer e enorme responsabilidade) há mais de três anos. Sim, o pastor da minha igreja resolveu dar ouvidos a esse irmão, e ele deve me considerar no fundo um impuro, por gostar de... Rock.

Aliás, música é um problema sério com cristãos. Você usa sabonete que não é explicitamente dedicado a Deus, vê filme que não é explicitamente dedicado a Deus, come comida que não é explicitamente dedicada a Deus. Então, porque eu sou obrigado a ouvir música que é explicitamente dedicada a Deus? Poucos admitem, mas os riffs de guitarra usados por grupos de louvores de várias igrejas (ou todas) tem origem no "odiado" rock.

Claro, também não vamos ao outro extremo. Embora o Iron Maiden não tenha sido assumidamente satanista (conforme foi explicado certa vez por um dos integrantes, e comentado nessa página aqui), eles foram elementos usados de certa forma para falar de satanás (Number of the Beast, para lembrar a mais conhecida). O próprio Rolling Stones, com Sympathy for the Devil, também. Muitos flertaram com satanás. Saindo dos mais conhecidos do grande público, Abaddon's Bolero, do disco Trilogy, do power-trio de rock progressivo Emerson, Lake and Palmer. Abaddon é o nome de um demônio, conforme relatado em Apocalipse 9:11:

E tinham sobre si rei, o anjo do abismo; em hebreu era o seu nome Abadom, e em grego Apoliom.

Existem bandas de progressivo européias que tem um médium como integrante da banda. Existem outras, de death e black metal, que são abertamente satanistas. Deicide, por exemplo. Mas daí dizer que TODAS são, é no mínimo, uma bobagem sem tamanho.

Que propósito tem de ouvir discos ao contrário e descobrir as verdadeiras mensagens por trás? O que tem de novo na mensagem que alguns colocam, mesmo sem a consciência do autor da música? O Rebanhão teve algumas coisas esquisitas gravadas ao contrário num dos seus discos que saiu pela Polygram - assim diz a lenda da época. E ai de quem falar que o Rebanhão não era cristão. Ou como os Engenheiros do Hawaii, que brincaram com o fato de alguns inverterem os discos, gravando uma mensagem: "Ei, o que você quer ouvir aqui? Aqui não tem nada não, vai ouvir o disco na ordem certa, vai. Deixa de perder tempo com esse papo de disco ao contrário". Ou algo assim. O que satanás quer fazer, todo mundo sabe, não precisa inverter discos, mexer nos rótulos da Coca-Cola ou investigar os desenhos animados para saber. Sabemos o que o inimigo de nossas almas quer, mas nem por isso aceitamos, topamos ou batemos palma para eles. Qual o propósito em inverter discos? Saber o que já estamos sabendo? Como se isso fosse mostrar novidades...

O mundo é mal-frequentado, não é ruim (já dizia Luiz Fernando Veríssimo), mas não façamos dele ainda pior do que está. Somos chamados a sermos sal e luz, a mudarmos o mundo, não torná-lo chato, como a visão de muitos irmãos nossos. E aqui entre nós, eu prefiro muita gente "do mundo" (se bem que eu não estou interessado em música "de Marte") tocando e cantando do que muitos cantores evangélicos, que acham que só por serem cantores evangélicos, tem algo de especial. Sinceramente... Está difícil.

3 Comments:

At 21:55, Anonymous Alexander Vieira said...

Companheiro, estamos juntos nessa batalha de conscientizar nossa "geração de adoradores" que música "do mundo" ou música "de igreja" é um conceito que deveria ser abolido. Faço meu o seu "desabafo". Graça e paz da parte de Deus. AMÉÉÉÉÉÉM!!! (com todos os riffs que temos direito) hehehe...

 
At 13:37, Anonymous Anônimo said...

Sabe de uma coisa. "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém." Esse é o meu lema. Achei o seu blog, por acaso, e gostei muito do que li sobre o U2. Não sou fã de rock, mas sempre gostei dessa banda, particularmente. E para mim, o que é bom. a gente fatura, o que é ruim, a gente extorna... Abraços

 
At 00:45, Blogger Raquel Souza said...

Caro amigo,
este tipo de distinção musical só é feito por pessoas ignorantes, cuja orientação de fé encontra-se nas palavras de seus pastores (na maioria das vezes, preconceituosas, quando fala-se de música), não na palavra de Deus. Conheço pessoas que justificam suas escolhas através dos sermões pastorais, pois têm preguiça de abrir a Bíblia e basear suas argumentações em dizeres que realmente importam.

 

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